Denis Villeneuve tem conduzido sua carreira com a precisão de um balé meticuloso. De produções independentes mais arriscadas a thrillers densos, ele cravou seu espaço no alto escalão de Hollywood e revolucionou a ficção científica moderna. Pegar uma obra tão complexa quanto a de Frank Herbert e transformá-la em um fenômeno não era uma missão para qualquer um – basta lembrar dos tropeços de adaptações anteriores, que acabaram duramente prejudicadas por cortes orçamentários drásticos de investidores. Mas o diretor franco-canadense superou as expectativas, conseguiu estruturar esse universo de forma impecável na primeira parte e garantiu carta branca para a sua aclamada sequência.

A Raiz da Disputa

Para entender o peso dessa trama, precisamos olhar para a essência do conflito: o controle absoluto de ativos inestimáveis. A Casa Atreides recebe a concessão do inóspito planeta Arrakis com uma diretriz clara, que é gerenciar a extração da especiaria. Essa substância, a mais valiosa de todas, é o verdadeiro motor da engrenagem financeira das grandes potências intergalácticas. Quando o Duque Leto, junto com Jessica e seu filho Paul, assume a operação, eles acabam caindo em uma emboscada brutal de mercado. O clã Harkonnen, a concorrência impiedosa que antes lucrava cifras absurdas com o monopólio daquelas areias, arquiteta uma tomada hostil em conluio com os reguladores supremos para varrer a família Atreides do mapa de uma vez por todas.

Com a base de operações inteiramente desmantelada, Paul e Jessica são jogados à própria sorte no deserto profundo. É lá que encontram refúgio com os Fremen, a população nativa que há muito tempo é esmagada pela exploração desenfreada de suas terras. O jovem herdeiro é rapidamente consumido por incertezas, uma hesitação que o olhar eternamente melancólico de Timothée Chalamet traduz com perfeição. O protagonista se vê dividido entre a responsabilidade pragmática de vingar a ruína dos negócios da família e a pressão de aceitar o fardo de ser o “messias” prometido pelas Bene Gesserit – uma irmandade ardilosa que manipula as flutuações do mercado e os bastidores do poder há gerações.

A Consolidação da Franquia

O segundo capítulo da saga, que chegou aos cinemas no final de fevereiro, mergulhou de cabeça nessa espiral de dilemas, e o resultado não poderia ser outro: um verdadeiro estrondo de bilheteria. A recepção extremamente calorosa da crítica e o lucro expressivo mostram que a luz verde para a terceira parte é praticamente uma questão de tempo. Em bate-papos recentes com a imprensa, Villeneuve confessou que dar um fecho para essa história seria a realização de um grande sonho profissional, além de marcar a conclusão do seu envolvimento direto com a franquia.

O cineasta faz questão de frisar que sua visão buscou honrar a essência dos livros originais o máximo possível. Apesar de o segundo longa tomar algumas liberdades e mudar dinâmicas estruturais em relação à obra escrita, o grande ponto de virada é brutalmente semelhante. Na visão crua de Herbert, ao consolidar o seu domínio e chegar ao topo absoluto da pirâmide de influência corporativa, Paul passa muito longe da figura do herói benevolente. Ele desencadeia uma verdadeira guerra econômica agressiva contra as demais casas e conglomerados para assegurar sua hegemonia de forma inquestionável.

Um eventual terceiro filme, que deve se apoiar nos eventos do livro O Messias de Duna, tem tudo para escancarar de vez essa desconstrução moral. A narrativa deve colocar os holofotes em como o novo líder inspira uma lealdade cega e letal, provando que o manto de salvador frequentemente traz consequências nefastas e fora de controle. Mantendo a pegada sofisticada dos capítulos anteriores, podemos esperar uma teia complexa de traições, manobras de mercado implacáveis, toques instigantes de ficção científica envolvendo clones de antigos aliados e um desfecho que promete não poupar ninguém, entregando resoluções amargas e surpreendentes até para os personagens mais queridos.